segunda-feira, 24 de maio de 2010

DRUMMOND DE ANDRADE VIU NASCER O PDT. 30 ANOS.



O Partido Democrático Trabalhista (PDT) celebra esta semana os seus 30 anos de fundação. A sigla PDT foi escolhida por Leonel Brizola depois que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, a pedido do general Golbery do Couto e Silva, então poderoso chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, entregar a histórica legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – fundado por Getúlio Vargas - a até então desconhecida Yvete Vargas.

Brizola, em uma entrevista coletiva, rasgou um papel com a sigla PTB escrita a caneta, chorou, e a partir dali, imediatamente, reagindo a um dos últimos estertores da ditadura, fundou o PDT. O ato foi registrado por Carlos Drummond de Andrade, com um poema.

O PTB vinha sendo organizado por Brizola desde 1979 quando, com a ajuda do presidente português Mário Soares, realizou na capital portuguesa uma grande reunião reunindo trabalhistas brasileiros que estavam no exílio e no Brasil, no Encontro de Lisboa. Naquela ocasião, Brizola, fechando o encontro, com um longo discurso, falou sobre o partido que pretendia recriar no Brasil.

A perda da sigla do PTB foi traumática, mas foi o ponto de partida para a criação do PDT que, dois anos depois, levaria Brizola a vencer as eleições de governador no Rio de Janeiro de forma espetacular, contra tudo e contra todos, revigorando o Trabalhismo brasileiro que, em matéria anexa, é analisado pelo cientista político Jorge Ferreira, em palestra que fez por volta de 2.000 na sede da Fundação Alberto Pasqualini, no Rio.
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Eu vi


Vi um homem chorar porque lhe negram o direito de usar três letras do alfabeto para fins políticos. Vi uma mulher beber champanha(*) porque lhe deram esse dirteito negado ao outro.

Vi um homem rasgar o papel em que estavam escritas as três letras, que ele tanto amava. Como já vi amantes rasgarem retratos de suas amadas, na impossibilidade de rasgarem as próprias amadas.

Vi homicídios que não se praticaram mas que foram autênticos homicídios: o gesto no ar, sem conseqüência, testemunhava a intenção. Vi o poder dos dedos. Mesmo sem puxar o gatilho, mesmo sem gatilho a puxar, eles consumaram a morte em pensamento.

Vi a paixão em todas as suas cores. Envolta em diferentes vestes, adornada de complementos distintos, era o mesmo núcleo desesperado, a carne viva;

E vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e fogos. Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro.

A política, vi as impurezas da política recobrindo sua pureza teórica. Ou o contrário.. Se ela é jogo, como pode ser pura… Se ela visa o bem geral, por que se nutre de combinações e até de fraudes.

Vi os discursos…

Carlos Drummond de Andrade
(Jornal do Brasil, 15/05/80 -- Caderno B -- Pg. 1)

pdtangra12@hotmail.com

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